Surrupiamos a célebre frase de Luiz Rettamozo para lembrar que: dos 319 anos que Curitiba completa amanhã, os primeiros 160 foram como cidade paulista.
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Fundada em 1693, a vila, depois cidade, pertencia à província de São Paulo. Isso até 1853, quando ocorreu a emancipação política do Paraná.
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Apenas 159 anos da história da cidade são paranaenses: menos da metade do número de velinhas no bolo desta quinta-feira.
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Isso explica muita coisa.
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Não é à toa que, ainda hoje, se alguém que não usa gravata todo dia é visto usando, das duas uma: ou ligar pra São Paulo ou fazer exame de fezes. Todo mundo aqui em Curitiba sabe disso.
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Ou não?
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Então eles que aproveitem, aqueles senhores e senhoras reclamões autodepreciativos, reservas morais dos bons costumes repressivos, bolsões de risinhos amarelos desprezantes e desprezíveis. Que sentem uma espécie de orgulho invertido ao apontarem sempre que possível o supostamente eterno provincianismo dos curitibanos. Reclamem e apontem seu dedo duro à vontade para qualquer iniciativa mais livre (ousada é uma palavra tão gasta…) de seus concidadãos. Mas façam isso rápido. Vocês não têm muito tempo.
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2012 é o fim do mundo para nossa vida de ex-paulistas exilados numa terra inculta e cinza longe dos bons restaurantes.
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Ano que vem, a cidade faz 320. Ficam 160 pra São Paulo, 160 pro Paraná. O jogo empata. A balança equilibra. Estamos quites. Daí pra frente é tudo nosso.
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Capital do Paraná. O que será que isso quer dizer? Que diferença isso faz? Que diabo de homenagem é essa? Falar nisso é pecado?
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Uma velha Curitiba morre hoje. Somos gratos a ela. Que descanse em paz.
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Uma nova Curitiba está nascendo agora, com mais gente disposta a criar, solucionar, superar e aproveitar e se divertir do que a reclamar.
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Este é o último 29 de março do resto da vida daquela. E o primeiro da nossa.
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Muitas felicidades, Curitiba, meu amor.
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E, à guisa de comemoração, nessa véspera de aniversário que também é véspera de campanha eleitoral, um trecho de Preponderância do Pequeno, novo romance de Antonio Cescatto, que conta uma história tensa e hilária sobre uma dessas campanhas. Médico abstêmio e publicitário praticante, ele lançou este seu segundo volume de ficção pela Kafka, a mesma editora do Luis Felipe Leprevost, do Manoel Carlos Karam, que está tomando uma Heineken no paraíso, e do Paulo Sandrini. E isso só como um exemplo das muitas outras pessoas que expressam a mudança nesta cidade principalmente pelo fato de continuarem aqui, vivendo, se expressando, publicando, dando novas formas para um nosso velho mau humor ir brincar.
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“…
Que diabos sei eu sobre o que acontece?
Tentei ser polido.
Sem deixar de ser franco. Vim de coração aberto. Coração aberto? Apaguei. Era melhor: com boa vontade.
Encontrei portas fechadas. Reuniões a portas fechadas. Conversas a portas fechadas. Comecei a sonhar com portas fechadas.
Não cheguei a tanto. Limitei-me a mencionar as portas fechadas.
O Pasquale e o Tito passaram o dia enfurnados. Não vejo as caras. Faço roteiros sobre roteiros e repasso. Na maior parte das vezes, Pasquale nem olha. Noutras, lê e guarda. Não participo das discussões de estratégias. Não discutimos caminhos. Colho informações que tento roteirizar.
Eu sei. Divagava. Começava a me perder.
Fora isso, tenho dúvidas sobre a estratégia. A história de falar que o modelo da cidade é ultrapassado. A insistência na ideia da mudança.
Essa parte eu não escrevi, claro. Limitei-me a criticar a estratégia de Homero Furtado.
Nesse tempo eu não entendia ainda que não se critica a estratégia de Homero Furtado.
Segue-se a estratégia de Homero Furtado.
…”
Preponderância do Pequeno, de Antonio Cescatto – Kafka Edições, Curitiba, 2010.


