A História de Ji Lee

Um tempo atrás falei aqui sobre uma palestra interessante de um tal de Ji Lee, Diretor Criativo do Google que já trabalhou como Diretor de Criação em agência de propaganda no Brasil. Ainda não consegui colar a legenda em português nele… Mas já consegui transcrever uma tradução da palestra. Ela vai então aqui como post e o vídeo segue abaixo (o melhor é clicar no link abaixo da telinha, lá embaixo, pra ver num formato melhor).

“Eu gostaria de compartilhar uma história rápida sobre um dos meus projetos, quando eu trabalhava numa grande agência de propaganda faz alguns anos. O cliente era Cherios, da General Mills, e o briefing era: “Cherios vem em cinco sabores diferentes.” Muita gente acha que Cherios vem sempre na caixa amarela. Na verdade ele vem quatro outros sabores. Era pra comunicar o consumidor que o Cherios vem em cinco sabores diferentes. Meu parceiro e eu sentamos e fizemos um brainstorm e chegamos nesta ideia brilhante: “Só os buracos deles têm o mesmo gosto.”Apresentamos ao cliente, eles adoraram.Todo mundo começou a rir e dizer isso é tão incrível e simples e inteligente e todo mundo se divertindo. Eu disse Putz foi muito mais fácil do que eu pensava… No final, um cliente levantou a mão e disse “Peraí, eu acho que a gente devia estar falando em sabor, em vez de gosto, porque é a linguagem que a gente usa na empresa quando fala dos produtos …” E a discussão foi em frente: gosto versus sabor. Por mais de 40 minutos. No fim todo mundo irritado, cansado, frustrado. E a idéia acabou morrendo. Nunca aconteceu.Então, o que começou como uma grande idéia divertida, simples, inteligente, nessa lama desses diálogos e egos corporativo e coisas assim, nunca aconteceu.Então depois de 4 anos desse processo eu fiquei realmente frustrado e cansado. Eu não conseguia mais produzir nada. Na real eu queria fazer alguma coisa. Eu queria não só pensar em idéias mas realmente fazer alguma coisa acontecer. Então a conclusão a que eu cheguei, depois de tentar 4 anos, tentar chegar numa idéia que envolvesse o consumidor e trouxesse benefícios à marca, mas no fim nada acontecia, então no fim a conclusão à que eu cheguei foi: eu não posso depender dos outros pra fazer as coisas acontecerem. E a solução é: eu vou ter que fazer tudo eu mesmo.Isso inclui Criação, Planejamento, a parte Financeira, Produção e o Marketing da ideia.Eu vi que a maioria das ideias que estavam sendo produzidas nas agências eram formulas. Chatas e previsíveis. E essas ideias estavam enchendo os espaços ao meu redor, em outdoors e painéis em toda parte, pontos de ônibus, estações de metrô… Eu queria fazer uma coisa que mudasse esses anúncios que me lembravam desse processo chato… Eu me sentia frustrado como criativo e violado como consumidor.Então eu gastei alguns milhares de dólares do meu próprio bolso e produzi 30 mil adesivos de balões de diálogos e comecei a colocar os balões em cima de anúncios como este. E este. E eu não sabia o que esperar. Eu sabia que alguma hora alguém iria escrever alguma coisa no balão, mas a única regra é que eu não escreveria nada.Eu só ia esperar as pessoas escreverem alguma coisa.E eu achei coisas maravilhosas que as pessoas escreveram: “Direitos dos Animais”, e outro escreveu “Mike Tyson arrrancou minha orelha com os dentes”. “Eu roubo música. E tô na área”. “Eu Bush. Quanto Mais Idiota Melhor…” “Que país Jesus bombardearia?”Então, às vezes era político, às vezes era só bobo, como esse: “Na Índia elas são sagradas… Mas aqui não é a Índia, vagabunda!” “Eu fumava crack no Trem 6”. E às vezes só falavam uma verdade simples: “Eu uso pra baixar pornografia”. É tão simples e tão verdadeiro, mas no contexto da idéia fica bem engraçado. “Perdi minha outra corcova para o câncer”!E eu notei que muitas outras pessoas começaram a produzir seus próprios balões, com suas próprias mensagens. Políticas. Estranhas. Propaganda. Pra promover seus livros e assim por diante. Teve até esse: Yipee ki yay mo. Eu não sabia o que era, tava por toda parte, e eu descobri que era uma campanha de marketing para o Duro de Matar 4. Então: uma agência de propaganda tinha pego o Projeto Balão e usado como sua Ferramenta Gorila (sic) pra promover seu produto, o que é interessante pro círculo todo.Bom, eu coletei mais ou menos mil fotos e postei no saite thebubbleproject.com e também deixei aberto pra outras pessoas poderem baixar a templeite e imprimir e cortar e espalhar os balões em suas cidades. No começo, havia de 60 a 70 visitantes por dia, amigos e amigos de amigos, quando chegou a 120 eu falei Isso! Tem 120 pessoas vindo pra esse saite, olhando pra esse balão e compartilhando ideias!Um dia, eu fui olhar só de curiosidade e tinha pulado de cento e poucos pra 50 mil e alguma coisa… E eu pensei: isso deve ser algum tipo de erro no servidor e tal… E aí, na vez seguinte que eu fui lá, o saite nem tava mais lá. O saite tinha estourado. E eu fiquei bem confuso até que descobri que era tudo por causa desse pequeno blog, o boingboing.net , que mencionou o Projeto Balão. E isso mudou completamente o curso do Projeto Balão, porque desde então outros blogs escreveram sobre o Projeto Balão, revistas, entrevistas e assim por diante.Então o que os projetos pessoais me ensinaram é que: projetos pessoais e profissionais complementam-se uns aos outros. Quer dizer: depois do Projeto Balão eu tive um monte de oportunidades profissionais: agências me contratando como frilancer, pedindo pra criar coisas parecidas com o Projeto Balão, que virasse viral e capturasse a imaginação das pessoas mundo afora.E coisas que eu aprendi do meu mundo profissional, como Matança de Massa (sic) e Marketing, eu também posso aplicar nos meus projetos pessoais. Então esses dois mundos podem complementar um ao outro. A segunda coisa é: criar uma plataforma é uma coisa poderosa. Então, em vez de criar uma coisa pra mim mesmo e depois exibir, criar projetos pra outras pessoas participarem e colaborarem. Isso instantaneamente ganha um sentido de escala, um sentido de profundidade e um sentido de alcance. E também você acaba conhecendo um monte de gente legal e trocando idéias no processo.Tempo é um conceito que pode ser esticado. Eu ouço o tempo todo: como eu vou tocar esse projeto… eu não tenho tempo… tô cheio de trabalho… Tempo é só uma idéia. E como idéia, pode ser mudado. E eu realmente acho que uma hora pode ser esticada e virar três horas. Então se você tá se divertindo mesmo e quer mesmo fazer uma coisa, sempre há tempo pra fazer essas coisas acontecerem.E por último: compartilhar compensa. Quando eu ia pra escola nos anos 90, meus professores me diziam: se você tem uma grande idéia você tem que protegê-la. Você tem que fazer o copyright, não mostre pra ninguém, mantenha em segredo, e mais tarde você faz ela acontecer e faz um monte de dinheiro com ela.Eu acho que toda filosofia criativa mudou por causa da Internet.Há toda a idéia da Fonte Aberta, o Creative Commons… As pessoas estão criando programas e projetos de graça, só pela diversão e pela alegria de criar uma coisa e compartilhar, e quando isso acontece, coisas maravilhosas acontecem. Quando as pessoas dão alguma coisa, tem sempre outras coisas que vêm de volta, numa escala muito maior.Gostaria de agradecer muito a vocês por compartilhares seu tempo comigo, e espero ver vocês em breve. Obrigado.”

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4 comentários em “A História de Ji Lee

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  1. bicho, não estou bem certo, mas essa experiência toda pra descobrir uma coisa que se não estou errado está não sei onde mencionada na Bíblia…
    é o tal de fazer o BEM sem esperar nada em troca, coisa bastante incomum lá na ameriquinha do norte…
    que bom que esse cara descobriu isso, apesar do longo “calvário” que cumpriu pra chegar lá…

    1. Boris, confesso que não tinha visto isso da Bíblia nessa história… sentado sobre a tanajura, entretanto, respeito seus quatro olhos… o que eu acho dessa história de fazer o bem é que fazer o bem faz quem o faz se sentir bem. isso faz de fazer o bem o cúmulo do egoísmo, também. e esse reconhecer esse fato incomoda muito certas pessoas, a ponto de elas não se permitirem fazer o bem sem esperar nada em troca, por culpa de se sentir tão bem fazendo isso… e por outro lado algumas pessoas meio que se viciam nessa sensação e transformam esse fazer o bem numa droga, no sentido negativo do termo, uma coisa que dá uma descarga de um tipo de prazer mas meio que embota a própria sensibilidade para o amor… gracias por la oportunidad de escribir esse tipo de tonterias amigo! abrax Boris!

    2. e o que eu acho legal também nessa história é que o cara inventou e botou na rua essa tal dessa plataforma para os outros atuarem em cima… e aí ele não tem controle se todo mundo só vai escrever “o bem”… a liberdade, o nãoo saber o que vem… isso é que eu acho interessante no projeto… e que é difícil acontecer numa situação de propaganda, que geralmente quer controlar todos os resultados…

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