Macabra Da Peste

Acompanhado de uma belíssima mulher, Hannibal Lecter, incógnito, entrou na joalheria e mandou que ela escolhesse a jóia que quisesse, sem se preocupar com o preço. Examina daqui, experimenta uma, depois outra, ela finalmente decide por um colar de ouro com diamantes e rubis. Preço: R$ 9.580,00.

Ele manda embrulhar, saca um talão de cheques e começa preencher. Assina, destaca e ao estendê-lo, percebe a fisionomia constrangida e preocupada do vendedor examinando o cheque. O cliente, então num gesto de gentleman, toma a iniciativa:


– Vejo que você está pensando que o cheque pode não ter fundos. É natural, eu também desconfiaria, afinal, uma quantia tão grande… Tudo bem. Façamos o seguinte: hoje é sexta-feira e o banco já fechou.
Você fica com o cheque e com a jóia. Na segunda-feira, você vai ao banco, pega o dinheiro e manda entregar a jóia na casa dela, ok?


Cheio de mesuras e agradecimentos pela compreensão o vendedor encaminha o casal até a saída, desejando-lhes um bom fim de semana. Na segunda-feira, o vendedor ligou para o cliente para dizer-lhe que, infelizmente, deve ter havido algum equívoco do banco, mas o cheque
não tinha fundos.

Ouviu, então, uma voz meio sonolenta:

– Sem problema. Pode rasgar o cheque. Eu já comi a mulher.

Introduzi o Hannibal nessa história primeiro por maldade, segundo por remeter ao passado, a um tipo de horror que o medieval inspira. Assim como as masmorras onde a Inquisição comia solta, o  cheque é também, ao que tudo indica, uma entidade medieval. Como a Peste Negra e a imprensa escrita.

Aplicar um golpe como esse, hoje, só se a mulher fosse muito sem noção demais e o cara da loja estivesse mancomunado com o comedor estelionatário. Ou se a Internet estivesse fora do ar. E o telefone também (mas isso geraria suspeitas).

É que, só entre 1997 e 2007, o uso de cheques caiu 44%. E de lá pra cá aposto que não subiu. E o Serasa está on line.

De modo que seria difícil. Mas não por não ser possível um canibal entrar numa loja de jóias.

R

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