NÃO CONFUNDA – Episódio de hoje: Trânsito e Opinião Pessoal

 

Da Série #1: “coisas estranhas encostadas para ver o que acontece”.

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Não sinalizam. Agem como se dissessem o carro é meu eu pago IPVA e ando do jeito que quiser. Onde eu quiser. Na velocidade em que estiver afim. Na estrada, pista dupla, eles querem ficar só na pista da esquerda. Eu, se vejo no retrovisor um carro que não estava ali na última vez que eu olhei, imediatamente procuro sair da frente, com calma, para a direita, para que o sujeito passe logo de mim e pare de assombrar meu espelho. Aprendi com esses caras que ligar o pisca pra esquerda, quando você chega atrás de um carro que está ocupando a pista da esquerda, quer dizer por favor, deixe-me passar. Luz alta quer dizer sai da frente, animal, e só deve ser usada em caso de você estar cansado da vida e disposto a ter emoção a qualquer custo. O da frente pode se assustar, se ofender, se atrapalhar e isso tudo, a mais de cem quilômetros por hora, com outros automóveis em volta, etc etc etc. pode lhe custar os olhos da cara.

 

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Quando era pequeno tinha grande poder de observar e gravar algumas informações, sensações, sentimentos. Como qualquer guri ou guria. Uma vez fui com meus colegas de turma fazer uma visita ao DETRAN. Devia ser no pré ou no primeiro ano, a gente era bem pequeno. Lembro de duas coisas: a merenda era estranha. Dizer merenda pra mim já diz tudo. Na minha escola, no jardim de infância e depois no colégio, a gente nunca tinha merenda. Tinha lanche. A bebida da merenda era um leite meio esquisito, com gosto docinho, lembrando talvez alguma fruta. Anos mais tarde, no tempo em que parei de beber leite e conheci o leite de soja, entendi que a o leitinho do DETRAN devia ser uma bebida de soja, talvez o que fosse servido em escolas que eu nunca frequentei. Não sei. No meu colégio tinha o Zé Eduardo, que sentava do meu lado e me dava uma metade do rissole de carne que a mãe dele mandava, sempre enrolado num papel alumínio. Era uma coisa muito gostosa. A minha mãe fazia uns sanduiches pra mim. Manteiga e presunto. Às vezes queijo. E uma garrafinha de Nescau. A garrafinha às vezes, molhava o sanduiche, virava no trajeto de casa até a sala de aula com o ônibus do Môto Nelson, um senhor magro, de cabelos e barbas brancas, bem ativo, parecia um capitão de uma nave com um motor que fazia um barulhão, vávulas de metal de abrir a porta com ar comprimido, bem barulhenta também, mais umas sei lá, 20, 30 crianças soltas, fazendo bagunça, jogando, fazendo e sofrendo bullying, e principalmente gritando muito. Não sei como ele agüentava. Parece um milagre não ter havido nenhum acidente muito mais grave que bater a boca no banco numa freada. O sanduiche, quando era de patê de sardinha, com o Nescau derramado, já depois de duas horas na lancheira, o cheiro quando eu abria… é o que em propaganda chamam de memorável.

 

***

 

Tudo isso pra dizer que nessa visita ao DETRAN, mais ou menos trinta e cinco anos atrás, aprendi que o certo é bicicleta andar pela rua, na contramão, pra poder ver se o carro que vem na mesma pista vai virar na sua frente, por exemplo. Se ele vem de trás é difícil, mesmo se a bike tiver espelhinho. E parece que hoje a regra é bem o contrário. Eu continuo achando que a regra antiga era melhor. E que andar de bicicleta na calçada também pode. E que uma coisa importante no trânsito é as pessoas se olharem. O ciclista, o pedestre, o motorista. Prestar atenção nas pessoas. É claro que lei ajuda. Sinalização ajuda. Capacete e meios de transporte mais seguros ajudam. Tribunais que consigam fazer cumprir as leis ajudam. Agora, tudo isso, se as pessoas se olharem, funciona muito melhor. Bicicleta na calçada, se eu não assustar as pessoas, não correr, acho que ajuda o trânsito. Gente que se fecha em vidro preto e se isola em som alto e celular precisa prestar muito mais atenção pra ajudar o trânsito. É mais difícil. Isso é o que eu acho. E daí o que eu acho? A lei é a lei e se a gente fosse escutar o que cada um acha, onde é que iríamos parar? Na internet.

 

***

 

Você já pensou em morar num trailer? Você já pensou que o passado, o renegado, o esquecido, o que foi recalcado, o que não foi perdoado, o que não pode ser dito, o que não foi esquecido, pode às vezes virar um monstro e vir nos assombrar, e que se a gente bobear ele mata a gente? Por outro lado, se a gente se ligar e fizer o que precisa ser feito e tiver sorte, a vida continua. Em todo caso, já que eu tô aqui, e você está aí e deu tempo de ler isso: boa noite bom dia boa semana feliz natal boas festas boas viagens feliz ano novo. Cuide do trânsito. E se cuide. Um abraço.

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3 comentários em “NÃO CONFUNDA – Episódio de hoje: Trânsito e Opinião Pessoal

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  1. O seu texto me fez lembrar que desde criança penso em morar num trailer. Mas a vida real cada vez afastou mais este pensamento.
    Assim como não lembrava mais da minha visita ao DER na 4.ª série (que a gente confundia com DETRAN) onde ensinavam, além das coisas que você diz, a olhar para o outro lado da rua, mesmo que a via fosse mão única. Da merenda não lembro. Também estudava numa escola em tínhamos que levar ou comprar nosso lanche (uma vez por semana eu comprava uma coxinha e uma coca). Só fui conhecer o leitinho da merenda quando me tornei professora de escola pública.
    Delícia de texto para começar a segunda e terminar o ano.

    Beijos.

  2. considerei. esse estilo de escrita meio prosa poética meio de homem que é menino é sempre encantador. olhar pra quem dirige anda de bike e anda a pé (e pros bichos que andam soltos, cuidado!), essa é a lei. até porque faço as três coisas e sei como é estar em cada lugar desse. lindo texto e feliz natal e festas e ano novo e tudo o mais pra vc tb.

  3. oi, Giselle! pode ser DER mesmo, não lembro. eu uma época pensei e até fiz alguns débeis movimentos em direção a morar num barco. num trailer ainda não. grato pela atenção! Fabiana! muito agradecido por essas lisonjas todas. felizes festas pra você e os seus relacionamentos. tudo de bom! grande abraço! Duas grávidas… isso significa… o que será?

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