Vira o disco. Disse o marciano.

Era uma vez eu estudava na Uene Bê, comia no Erre U. O grupo de dança se apresentou de maneira inesquecível. Ocupou a entrada, uma área com um desnível na frente da entrada do restaurante, ao som de Amanticida, de Itamar Assumpção. Uma das bailarinas era particularmente inesquecível, por algo que emanava de suas curvas e das curvas que elas produziam.

Uma noite assisti a um show do Itamar num teatro cujo nome não lembro, no Eixo Monumental, pra trás da Torre. Sensacional. Energia, inteligência, ritmo, calor e clareza. Era excelente. Tinha um baterista gigante chamado Gigante Brasil.

Depois um dia aqui em Curitiba assisti a um show do cara no teatro do Portão. No dia seguinte fizemos, o Denis Nunes, o Oswaldo Rios, eu e mais unziotro uma oficina de música com poema e tal e coisa. Já tive uma vez um CD do Itamar interpretando Ataulfo Alves, que considero um dos melhores discos daquele artista brilhante que depois e ficou doente e cada vez mais mau-humorado com a resposta do mundo a seu trabalho. Também possuí três LPs com dedicatórias conseguidas naquela ocasião da oficina. Que se perderam em alguma mudança caídos de um caminhão como poesia que se perde na tradução do que uma pessoa era para o que é este que voz escreve. As pessoas não mudam, diz uma voz de seriado de TV na oitava temporada em benefício próprio. E isso também é verdade. E também só o que não muda é a mudança, dizia um pré-socrático.

Aquelas capas talvez eu encontre um dia num sebo e precise comprá-las de novo. Está escrito numa delas:

Ricardo

música não é pecado

poesia não é fardo

Itamar Assumpção

Se alguém encontrar, me dê um toque. Até lá, mantenho meu tocadiscos funcionando com Chico Buarque e Max Roach e Jorge Veiga. E ouço Ataulfo Alves, por Itamar, no grooveshark, que é excelente.

***

E ontem, há quinze anos, morreu o Chico Science. A respeito dessa figura especial da nossa história, uma vez publiquei

órfico science

da primeira vez que chico science desceu ao hades

onde mora o maracatu

subiu com um som de zumbis

da segunda vez não conseguiu

chegou                                  partiu

a cabeça em mil pedaços

na primeira vez que mergulhou no mangue

caranguejou-se

na segunda o cara anjou-se

decerto morreu olhando o mesmo mangue

caranguemusos sujos de sangue

seria siri sua euridicereia?

***

A despeito da voz que quer deletar este post antes de eu publicá-lo, publico

destreza

ambidestro

destruo

para dentro e para fora

para frente e para trás

para baixo para cima

à direita e à esquerda

vou destruindo tudo

pontes portos certezas

fim de mundo

até sobrar só o céu

a terra

e a tristeza

***



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3 comentários em “Vira o disco. Disse o marciano.

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  1. Pois eu estava nessa apresentação de dança e me lembro daquela gata, cujo nome não me ocorre. Tomara que seu disco apareça por aí. Deve pintar em algum sebo lá no Brooklyn ou no Marché aux puces…
    Abração, saudade

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