Futebol, Lava Jato e o Juiz

Imagine o futebol antes de existir o pênalti.

Imagine que os partidos da esquerda e da direita brasileiras estavam jogando um campeonato da corrupção. O PT vinha vencendo há muitas rodadas, mas parece que com aquele lance polêmico da delação da Odebrecht o jogo empatou.

Só a torcida perdeu. Ao mesmo tempo que vem ganhando consciência. Exceto as organizadas, que até agora não querem nem saber.

*

O 1 é um começo. O 2 desenvolve a história em alguma direção. E o 3 sempre pode ser uma surpresa.

De 1 a 2 se forma uma linha. O 3 vai seguir a mesma direção da linha estabelecida entre 1 e 2? Ou a direção vai mudar?

Mudar pra onde?

*

Número 1: a Operação Lava Jato revela falcatruas e condena um grande grupo político.

Número 2: a Operação Lava Jato revela mais falcatruas que contaminam também o grupo político rival.

Número 3: e agora?

Segue minha tradução para um texto publicado no site Brasil Talk, sobre o nosso atual momento número 3.

*

“IN MORO WE TRUST”

OU “MORO GOLPISTA”:

O PERIGO DA POLÍTICA DE FUTEBOL

por Isabela Messias, Co-editora do site Brazil Talk www.braziltalk.org (Conversa Brasil)

São 9h30 e a conferência “Construção de Instituições, Governança e Conformidade no Brasil” (Institution-Building, Governance and Compliance in Brazil), organizada e co-sediada pela Universidade de Columbia, acaba de se preparar para receber Sergio Moro, o juiz federal que está encabeçando a operação Lava-Jato – a maior investigação de corrupção na história do Brasil.

A sala está lotada de estudantes, acadêmicos, estudiosos e jornalistas esperando Moro subir ao palco.

Quando ele sobe, entretando, o inesperado acontece: em meio a aplausos estrondosos, protestos indignados irrompem da plateia.Uma mulher, que teve que ser escoltada para fora, grita “Tendencioso! Golpe!”. Outra pessoa se une ao coro, lendo o mais alto possível uma carta de protesto.

Do lado oposto, uma pessoa vestida com a camisa de futebol do Brasil segura raivosamente um cartaz que diz “In Moro We Trust”, e grita “cala a boca” enquanto vaia.

Desnecessário dizer, foi o caos, e atrasou a fala de Moro em pelo menos 20 minutos.

O que essa situação mostra, na verdade, é muito mais perigoso do que o mero embaraço e pode ter muito mais consequências que vinte minutos de atraso.

Isso é o Brasil em miniatura.

A alta polarização e a personalização da política tornaram o diálogo quase impossível – o Brasil está seguindo lealmente o padrão internacional de diálogo decrescente e crescente radicalização. De um lado, um grupo protesta contra as mudanças políticas, argumentando que tanto as investigações da Lava-Jato como o impeachment são tendenciosos e têm como meta derrotar o PT – Partido dos Trabalhadores. No outro extremo, um grupo adora a Lava Jato como a melhor coisa que aconteceu na política e acolhe o impeachment em uma perseguição quase purgatória da antiga presidente(a) Dilma Roussef. Para esses grupos, com pouca variância, o Juiz Moro é demônio e herói, respectivamente.

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Esses grupos também não conversam um com o outro.

O El País pesquisou perfis de participantes de protestos “pró-impeachment” e “contra-o-golpe” e descobriu que nenhum desses dois grupos lê ou compartilha conteúdo dos mesmos meios de comunicação, nem segue as mesmas páginas.

Cada grupo consome informação de suas próprias fontes e há pouco, se há, intercâmbio entre eles.

Essa tendência é ainda mais fortalecida pela perspectiva pessoal que a política assume, na qual políticos e figuras públicas são ou demonizados ou santificados. Isso é o que acontece com Moro, Lula, Dilma e muitos outros protagonistas dos últimos acontecimentos no Brasil.

Nossa equipe, no Brazil Talk, teve a oportunidade de conversar com o Juiz Moro, e perguntar a ele diretamente sobre seus pensamentos nesse contexto.

“Isso não é específico do Brasil”, alega o Juiz Moro. “Veja a Itália com Antonino Di Matteo (…) há casos até aqui nos Estados Unidos. Mas se quisermos enfrentar isso, a saída é fortalecer as instituições públicas”.

De fato, essa visão foi corroborada por palestrantes no painel subsequente em Columbia.

Otaviano Canuto, Diretor Executivo do Banco Mundial, por exemplo, afirmou que “A Lava Jato será uma contribuição para o Brasil na medida em que ela seja só o começo”. Em seguida ele explicou como existe uma forte necessidade de mudanças estruturais no sistema político e econômico brasileiro, para fomentar um desenvolvimento que não seja facilitador de corrupção e que seja composto por instituições fortes.

Lisa Schineller, Diretora de Gestão da Standard & Poor’s, concordou com essa visão, ecoando: o legado da Lava Jato será valioso se houver uma mudança sustentável depois dela, uma mudança que possa equilibrar as consequências políticas das investigações.

No geral, a mensagem é clara: o Brasil precisa melhorar o sistema, e precisamos de instituições fortes – não de líderes fortes, não de heróis. Mas como garantir que isso possa ser feito? Em vez de brigar por uma ou duas figuras públicas, como fortalecer as instituições? Como o Brasil pode garantir que a Operação Lava Jato não seja apenas um evento isolado?

Instituições acadêmicas como a Universidade de Columbia, dentro e fora do Brasil, têm um papel importante ao tentar responder essas questões. As organizações acadêmicas precisam promover o debate e explorar pontos de vista diferentes. Este evento sobre Governança no Brasil foi um exemplo de uma oportunidade para fazer isso, que pode ter sido perdida não apenas por quem protestou, mas também pela Columbia.

Se, por um lado, berrar dos dois cantos de uma sala não ajudou a quem protestou, por outro, é justo dizer que o evento seria beneficiado pela apresentação de um ponto de vista coerente e dissidente, para contrabalançar as vozes concordantes que dominaram a discussão.

Como aponta uma carta de um grupo de alunos e estudiosos da New School (Nova Escola), o evento foi grandemente unilateral, sem visões dissidentes seja de palestrantes ou de organizadores. E eventos acadêmicos certamente contribuem muito mais para encontrar soluções quando são verdadeiramente inclusivos, com visões opostas e complementares.

Esta é a razão pela qual é tão importante fomentar iniciativas como o Brazil Talk, que tem como objetivo incentivar o debate e trazer novas perspectivas para a mesa – muitas vezes também apresentando soluções inovadoras para os assuntos correntes. Somente nós nos permitindo realmente escutar e entender pontos de vista diferentes seremos capazes de criar respostas conjuntas para os problemas da nossa nação. As instituições não vão se fortalecer por si mesmas – é preciso um esforço comum, coeso, que virá apenas com a consciência pública e o debate.

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Hoje é 3 do 3.

E porque também é 2017 eu posso acessar a Wikipedia e saber sobre coisas que aconteceram em outros 3 do 3, de outros anos, séculos atrás.

Em 3 do 3 de 1891 foi criada a regra do pênalti no futebol. O jogo nunca mais foi o mesmo.

*

Anteontem Atlético (grande Furacão) e Coritiba, arquirrivais de chutar a cabeça um do outro em momentos de agonia e êxtase, se uniram, em prol de um bem comum: a liberdade em relação ao velho esquema de relações entre quem produz conteúdo e quem o veicula. É tudo uma questão de foco em algo maior e melhor.

*

Um, dois, três.

E já.

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