Toma roque, Tiradentes

Os feriados são cada vez mais adorados e têm cada vez menos sentido.

O Crucificado semana passada, o Enforcado/Esquartejado hoje, o Trabalho na outra segunda.

Corpus Christi a maioria dos cristãos vai morrer sem saber o que é.

Merecemos os dias de folga. A memória, as lições, a chatice ninguém merece.

Primeiro eles levam o Natal e a gente não diz nada porque não é Virgem Maria.

Depois eles levam a Páscoa e também não dizemos nada pois não somos a fim de ver sangue.

Um dia eles vêem te buscar no meio do feriado, você com tudo pronto pra sair pra praia, o carro lotado, as criança.

De repente no céu um balão. De chumbo.

Um míssil Tomahawk ou uma tradução do LedZep?

Corda no Pescoço

 

Seu moço, seu moço

Segura só um pouquinho

Tô vendo uns amigos chegando

Viajaram o dia todinho

 

Aí sim! Nessa hora é que se vê

Meu peito chega transborda

Tem ouro, tem tv de plasma

Livrei o pescoço da corda

 

Deu ruim e não deu pra trazer

A gente é pobre, acorda

E volta o pescoço pra corda

 

Seu moço, seu moço

Só mais um instantinho

Ali, ó, chegou meu irmão

Veio de longe, tadinho

 

Mano trouxe o cartão?

Tá com a grana na mão?

Que é que tu conta, meu bróder

Pra tirar meu pescoço da corda?

 

Mano, então, veio uma mala

De grana e um cordão de ouro bem grosso

Pra essa corda errar teu pescoço

Foi o que deu pra trazer pra essa corda livrar teu pescoço

 

Seu moço, seu moço

Olha pra lá um pouquinho

Tá vendo? É minha irmãzinha

Vem vindo e é bem bonitinha

 

Mana, é só dessa vez, por favor por favor por favor

Dá pra ele teu corpo emprestado

Livra o meu desse horror

Por favor

Livra o meu desse horror, por favor

 

Seu moço, seu moço

Vejo um sorriso em seu rosto

Diz pra mim que eu tô livre pra ir

Aonde for do meu gosto

 

Opa! Tens uma irmã delicinha

Me deixou duro que nem um osso

O meu sangue esquentou e ferveu

Pra livrar da corda teu pescoço

 

Teu irmão meu deu uma força

Tua irmã foi meu almoço

Agora eu puxo e acho graça

Te balanço pelo pescoço

Te balanço pelo pescoço

 

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ROBÔ! ou: O futuro vem comendo pelas bordas

Hoje não teve atentado. Pelo menos na minha taimilaine. Fiquei sabendo de um ou dois mas já de ontem, parece.

Manifestação teve. Hoje de manhã eu vi uma dos cobradores de ônibus contra o anúncio do fim dessa profissão. A próxima vai ser a dos motoristas, daqui uns dois, cinco anos?

Será que os motoristas do Uber vão reclamar ou vão achar natural quando, empoderada pelo Big Data, a moça do Googlemaps assumir o volante?

A sua profissão está segura em relação aos robôs?

E se “robô” for uma palavra que quer dizer “roubou”?

O nosso país pode fazer escolhas melhores a partir de agora na direção de ajudar a preparar os cidadãos para ou roubo dos empregos que vem por aí?

E você? Não para salvar o país mas em relação a sua carreira/atividade/profissão/vida.

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Encontrei na minha caixa de imeios hoje esse post do Seth Godin, que traduzi e mostro a você a seguir.

*** 

23 coisas que computadores artificialmente inteligentes conseguem fazer melhor/mais rápido/mais barato do que você

Prever o clima

Ler um raio-X

Jogar Go

Corrigir ortografia

Imaginar o Lucros-e-Perdas de uma grande empresa

Identificar um rosto em uma multidão

Contar calorias

Pilotar um jato por aí

Manter a temperatura da sua casa

Reservar um vôo

Guiar um trajeto

Criar um índice para um livro

Jogar Xadrez

Soldar ferro

Negociar ações

Posicionar anúncios digitais

Escolher qual o próximo livro pra ler

Molhar uma planta

Monitorar um recém-nascido prematuro

Detectar um incêndio

Jogar pôquer

Ler documentos em um processo

Separar pacotes

Se você viu filmes o suficiente, você provavelmente comprou o modelo homúnculo de Inteligência Artificial – que está no futuro e representa um homenzinho mecânico em uma caixa, misterioso em suas motivações, que nem você.

O futuro da IA provavelmente é muito como o passado: comendo pelas bordas. A Inteligência Artificial faz um trabalho que já não tinha ninguém assim louco pra fazer, e faz silenciosamente, e faz bem, e daí a gente esquece e nem liga. Ninguém reclamou quando o termostato assumiu o trabalho de acender o fogo, abrir a grade, abrir a janela, refazer o fogo. E ninguém reclamou quando o computador achou 100 vôos mais rápido e melhor do que a gente jamais conseguiria.

Mas o sistema nunca se cansa, ele continua comendo pelas bordas. Não com intenção benigna ou maligna, mas com foco em uma tarefa claramente definida.

Não há como evitar que isso leve a consequências não planejadas, enormes quando acontecem com você, e em geral pequenas no esquema geral das coisas. A tecnologia destrói o que é perfeito e daí possibilita o impossível.

A pergunta que cada um de nós precisa fazer é simples (mas difícil): No que eu posso me tornar muito bom que é difícil um computador realizar em um futuro próximo? Como posso me tornar tão resiliente, tão humano e tão elo-de-ligação que mudanças na tecnologia não tenham como me alcançar?

Isso sempre foi importante, mas agora é urgente.

Seth Godin

***

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Hoje o idiota mesoclítico que nomeou o sinistro da educação realizou por meio deste várias medidas desprezíveis pela educação das crianças pobres brasileiras, que são a suprema maioria das crianças hoje e dos adultos amanhã.

Sei lá. Para salvar o país, temos eleições. Mas será que isso é o suficiente? Mas e até lá? Não dá uma inquietação de aceitar esses velhos idiotas fazendo tudo menos uma escola que preste pra gente sair um dia dessa idiotia geral?

Isso também vai interferir no seu emprego daqui a cinco, dez anos. Mas como?

Sei lá. Menos gente capacitada, menos inteligência no sistema coletivo.

Posso estar enganado. Não sei se com vocês, mas comigo já aconteceu.

Tomara.

Lua cheia.

Vamos vivendo, procurando, encontrando.

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Futebol, Lava Jato e o Juiz

Imagine o futebol antes de existir o pênalti.

Imagine que os partidos da esquerda e da direita brasileiras estavam jogando um campeonato da corrupção. O PT vinha vencendo há muitas rodadas, mas parece que com aquele lance polêmico da delação da Odebrecht o jogo empatou.

Só a torcida perdeu. Ao mesmo tempo que vem ganhando consciência. Exceto as organizadas, que até agora não querem nem saber.

*

O 1 é um começo. O 2 desenvolve a história em alguma direção. E o 3 sempre pode ser uma surpresa.

De 1 a 2 se forma uma linha. O 3 vai seguir a mesma direção da linha estabelecida entre 1 e 2? Ou a direção vai mudar?

Mudar pra onde?

*

Número 1: a Operação Lava Jato revela falcatruas e condena um grande grupo político.

Número 2: a Operação Lava Jato revela mais falcatruas que contaminam também o grupo político rival.

Número 3: e agora?

Segue minha tradução para um texto publicado no site Brasil Talk, sobre o nosso atual momento número 3.

*

“IN MORO WE TRUST”

OU “MORO GOLPISTA”:

O PERIGO DA POLÍTICA DE FUTEBOL

por Isabela Messias, Co-editora do site Brazil Talk www.braziltalk.org (Conversa Brasil)

São 9h30 e a conferência “Construção de Instituições, Governança e Conformidade no Brasil” (Institution-Building, Governance and Compliance in Brazil), organizada e co-sediada pela Universidade de Columbia, acaba de se preparar para receber Sergio Moro, o juiz federal que está encabeçando a operação Lava-Jato – a maior investigação de corrupção na história do Brasil.

A sala está lotada de estudantes, acadêmicos, estudiosos e jornalistas esperando Moro subir ao palco.

Quando ele sobe, entretando, o inesperado acontece: em meio a aplausos estrondosos, protestos indignados irrompem da plateia.Uma mulher, que teve que ser escoltada para fora, grita “Tendencioso! Golpe!”. Outra pessoa se une ao coro, lendo o mais alto possível uma carta de protesto.

Do lado oposto, uma pessoa vestida com a camisa de futebol do Brasil segura raivosamente um cartaz que diz “In Moro We Trust”, e grita “cala a boca” enquanto vaia.

Desnecessário dizer, foi o caos, e atrasou a fala de Moro em pelo menos 20 minutos.

O que essa situação mostra, na verdade, é muito mais perigoso do que o mero embaraço e pode ter muito mais consequências que vinte minutos de atraso.

Isso é o Brasil em miniatura.

A alta polarização e a personalização da política tornaram o diálogo quase impossível – o Brasil está seguindo lealmente o padrão internacional de diálogo decrescente e crescente radicalização. De um lado, um grupo protesta contra as mudanças políticas, argumentando que tanto as investigações da Lava-Jato como o impeachment são tendenciosos e têm como meta derrotar o PT – Partido dos Trabalhadores. No outro extremo, um grupo adora a Lava Jato como a melhor coisa que aconteceu na política e acolhe o impeachment em uma perseguição quase purgatória da antiga presidente(a) Dilma Roussef. Para esses grupos, com pouca variância, o Juiz Moro é demônio e herói, respectivamente.

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Esses grupos também não conversam um com o outro.

O El País pesquisou perfis de participantes de protestos “pró-impeachment” e “contra-o-golpe” e descobriu que nenhum desses dois grupos lê ou compartilha conteúdo dos mesmos meios de comunicação, nem segue as mesmas páginas.

Cada grupo consome informação de suas próprias fontes e há pouco, se há, intercâmbio entre eles.

Essa tendência é ainda mais fortalecida pela perspectiva pessoal que a política assume, na qual políticos e figuras públicas são ou demonizados ou santificados. Isso é o que acontece com Moro, Lula, Dilma e muitos outros protagonistas dos últimos acontecimentos no Brasil.

Nossa equipe, no Brazil Talk, teve a oportunidade de conversar com o Juiz Moro, e perguntar a ele diretamente sobre seus pensamentos nesse contexto.

“Isso não é específico do Brasil”, alega o Juiz Moro. “Veja a Itália com Antonino Di Matteo (…) há casos até aqui nos Estados Unidos. Mas se quisermos enfrentar isso, a saída é fortalecer as instituições públicas”.

De fato, essa visão foi corroborada por palestrantes no painel subsequente em Columbia.

Otaviano Canuto, Diretor Executivo do Banco Mundial, por exemplo, afirmou que “A Lava Jato será uma contribuição para o Brasil na medida em que ela seja só o começo”. Em seguida ele explicou como existe uma forte necessidade de mudanças estruturais no sistema político e econômico brasileiro, para fomentar um desenvolvimento que não seja facilitador de corrupção e que seja composto por instituições fortes.

Lisa Schineller, Diretora de Gestão da Standard & Poor’s, concordou com essa visão, ecoando: o legado da Lava Jato será valioso se houver uma mudança sustentável depois dela, uma mudança que possa equilibrar as consequências políticas das investigações.

No geral, a mensagem é clara: o Brasil precisa melhorar o sistema, e precisamos de instituições fortes – não de líderes fortes, não de heróis. Mas como garantir que isso possa ser feito? Em vez de brigar por uma ou duas figuras públicas, como fortalecer as instituições? Como o Brasil pode garantir que a Operação Lava Jato não seja apenas um evento isolado?

Instituições acadêmicas como a Universidade de Columbia, dentro e fora do Brasil, têm um papel importante ao tentar responder essas questões. As organizações acadêmicas precisam promover o debate e explorar pontos de vista diferentes. Este evento sobre Governança no Brasil foi um exemplo de uma oportunidade para fazer isso, que pode ter sido perdida não apenas por quem protestou, mas também pela Columbia.

Se, por um lado, berrar dos dois cantos de uma sala não ajudou a quem protestou, por outro, é justo dizer que o evento seria beneficiado pela apresentação de um ponto de vista coerente e dissidente, para contrabalançar as vozes concordantes que dominaram a discussão.

Como aponta uma carta de um grupo de alunos e estudiosos da New School (Nova Escola), o evento foi grandemente unilateral, sem visões dissidentes seja de palestrantes ou de organizadores. E eventos acadêmicos certamente contribuem muito mais para encontrar soluções quando são verdadeiramente inclusivos, com visões opostas e complementares.

Esta é a razão pela qual é tão importante fomentar iniciativas como o Brazil Talk, que tem como objetivo incentivar o debate e trazer novas perspectivas para a mesa – muitas vezes também apresentando soluções inovadoras para os assuntos correntes. Somente nós nos permitindo realmente escutar e entender pontos de vista diferentes seremos capazes de criar respostas conjuntas para os problemas da nossa nação. As instituições não vão se fortalecer por si mesmas – é preciso um esforço comum, coeso, que virá apenas com a consciência pública e o debate.

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Hoje é 3 do 3.

E porque também é 2017 eu posso acessar a Wikipedia e saber sobre coisas que aconteceram em outros 3 do 3, de outros anos, séculos atrás.

Em 3 do 3 de 1891 foi criada a regra do pênalti no futebol. O jogo nunca mais foi o mesmo.

*

Anteontem Atlético (grande Furacão) e Coritiba, arquirrivais de chutar a cabeça um do outro em momentos de agonia e êxtase, se uniram, em prol de um bem comum: a liberdade em relação ao velho esquema de relações entre quem produz conteúdo e quem o veicula. É tudo uma questão de foco em algo maior e melhor.

*

Um, dois, três.

E já.

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Deuz ilimine o sinhô, Senadô

Hoje é o Dia da Conquista do Voto Feminino no Brasil. Dê um Google e confira.

Mas ontem eu ouvi no rádio do carro que 23 de fevereiro é o Dia da Sedução. Não faço ideia de por que razão isso existe. Será um dia consagrado pelos católicos em homenagem à serpente do Jardim do Éden?

De qualquer forma, ter ouvido isso e o áudio do reptiliano Senador Jucá explicando que o foro privilegiado é uma suruba onde ele quer que todos entrem me iluminou para escrever meu segundo post da nova temporada.

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Uma das histórias que meu pai conta de quando ele morava no Rio de Janeiro, nos anos 1950 pra 60, é a de que uma vez ele estava na praia de Copacabana, e a Luz Del Fuego estava na praia também.

Luz Del Fuego era essa mulher à frente do seu tempo. Símbolo sexual, símbolo de liberdade e potência feminina, ela foi vedete do teatro de revista, onde se apresentava nua, coberta apenas por suas duas jiboias. Foi presa, foi solta, escreveu livros, fundou um partido, tinha brevê para pilotar aviões. Isso lá nos os anos 1940 e 50.

Sabe por que o Dia do Naturismo é celebrado dia 21 de fevereiro? Porque é o dia do aniversário da Luz Del Fuego.

Sabe por que ela morreu? Há controvérsias. A história oficial é que dois pescadores, que haviam trabalhado em uma obra em sua casa assassinaram-na pra roubar umas quinquilharias.

Nesse momento ela já não morava no Espírito Santo, onde nasceu, mas sim em uma ilha na baía da Guanabara, que ela arrendou da Marinha Brasileira e nomeou de Ilha do Sol.

Sua fama correu o mundo. A ilha se tornou uma espécie de comunidade alternativa, naturista. Dizem que Steve McQueen esteve lá.

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Ela tinha boas relações, talvez sexuais, com vários figurões da época, incluindo militares e políticos importantes. Seu cachorro se chamava Carlos Lacerda. Tinha um diário também, onde parece que anotava coisas.

Os assassinos dela, um morreu na cadeia, outro em uma emboscada.

O diário sumiu.

Lembrei do caderninho que o Eduardo Cunha deve ter.

Lembrei do episódio das mensagens de celular que um hacker trocou com a primeira dama Marcela Temer.

Lembrei de como o Teori Zavascki saiu de cena.

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Meu pai conta que ela estava deitada de bruços, sem a parte de cima do biquíni. E ele, simbolizando a eterna bobice masculina, ficava disfarçando e olhando, meio que se torcendo discretamente pra ver se quando ela se movimentasse daria pra ver alguma coisa proibida.

As cobras não estavam com ela nessa ocasião.

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Oliver Stone, José Padilha e o monstro

Oliver Stone escreveu o roteiro de Scarface (aquele com Aécio no papel de Al Pacino), além de O Expresso da Meia-noite e outros grandes filmes, além de ter dirigido o filme do The Doors e muitos outros, que eu nem aprecio tanto como esses aí mencionados, mas que sem dúvida são importantes pra quem presta atenção em cinema.

Oliver Stone andou visitando o Chaves (ou o Maduro), não lembro. E na verdade pouco importa neste momento.

O que importa é que ontem eu vi um texto de uma aula magna/discurso que ele fez, e resolvi traduzir e mostrar pra você.

Não se ofenda, não estou dizendo que você não sabe ler em inglês. É que eu gosto de traduzir.

E nesse texto dele ele se refere a um “sistema” que funcionaria nos Estados Unidos. E hoje eu li este texto do José Padilha, que só fez filme bom ou ótimo até agora. São dois textos de dois cineastas que, na minha opinião, estão bem lúcidos. Ainda não ficaram gagás.


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Aula Magna de Oliver Stone no Prêmio da Liga dos Roteiristas

” Você não tem que se encaixar. Está na moda agora tirar fotos com os republicanos e Trump e evitar os Obamas e Clintons. Mas lembre-se disso: nas 13 guerras que começamos nos últimos 30 anos e nos 14 trilhões de dólares que gastamos, e nas centenas de milhares de vidas que pereceram nessa terra, lembre-se de que não foi um líder, mas um sistema, tão republicano como democrata. Chame como quiser: o complexo militar industrial monetário midiático de segurança. É um sistema que foi perpetuado sob o disfarce de que são apenas guerras justificáveis em nome da nossa bandeira que ondeia tão orgulhosa.

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Nosso país se tornou mais próspero para muitos mas em nome dessa riqueza não podemos justificar nosso sistema como centro dos valores humanos.

Mas continuamos a criar esse caos e essas guerras. Nem precisamos falar das vítimas, mas sabemos que interviemos em mais de 100 países por meio e invasão, mudança do regime, caos econômico.Ou alugamos guerras. É guerra de algum jeito. No fim, virou um sistema que está levando à morte deste planeta e à extinção de nós todos.

Eu lutei contra essas pessoas que praticam guerra quase a minha vida inteira.

É um jogo cansativo. E na maior parte das vezes você acaba levando um chute na b-. Com toda a crítica que você vai receber, e a bajulação também, é importante lembrar: se você acredita no que está dizendo e consegue manter o curso, você pode fazer diferença.

Eu peço a você que dê um jeito de ficar sozinho consigo mesmo, ouvir seus silêncios, nem sempre em uma sala de roteiristas.

Tente encontrar não o que as pessoas querem, para você ter sucesso, mas tente em vez disso encontrar o verdadeiro significado da sua vida aqui na Terra, e nunca desista no seu coração da sua luta pela paz, pela decência e por dizer a verdade.”

Grato pela atenção.

Esse foi meu primeiro post desde 2012. Vamos nessa.

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CURITIBA. ÂNUS NA FRENTE.

Surrupiamos a célebre frase de Luiz Rettamozo para lembrar que: dos 319 anos que Curitiba completa amanhã, os primeiros 160 foram como cidade paulista.

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Fundada em 1693, a vila, depois cidade, pertencia à província de São Paulo. Isso até 1853, quando ocorreu a emancipação política do Paraná.

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Apenas 159 anos da história da cidade são paranaenses: menos da metade do número de velinhas no bolo desta quinta-feira.

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Isso explica muita coisa.

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Não é à toa que, ainda hoje, se alguém que não usa gravata todo dia é visto usando, das duas uma: ou ligar pra São Paulo ou fazer exame de fezes. Todo mundo aqui em Curitiba sabe disso.

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Ou não?

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Então eles que aproveitem, aqueles senhores e senhoras reclamões autodepreciativos, reservas morais dos bons costumes repressivos, bolsões de risinhos amarelos desprezantes e desprezíveis. Que sentem uma espécie de orgulho invertido ao apontarem sempre que possível o supostamente eterno provincianismo dos curitibanos. Reclamem e apontem seu dedo duro à vontade para qualquer iniciativa mais livre (ousada é uma palavra tão gasta…) de seus concidadãos. Mas façam isso rápido. Vocês não têm muito tempo.

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2012 é o fim do mundo para nossa vida de ex-paulistas exilados numa terra inculta e cinza longe dos bons restaurantes.

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Ano que vem, a cidade faz 320. Ficam 160 pra São Paulo, 160 pro Paraná. O jogo empata. A balança equilibra. Estamos quites. Daí pra frente é tudo nosso.

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Capital do Paraná. O que será que isso quer dizer? Que diferença isso faz? Que diabo de homenagem é essa? Falar nisso é pecado?

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Uma velha Curitiba morre hoje. Somos gratos a ela. Que descanse em paz.

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Uma nova Curitiba está nascendo agora, com mais gente disposta a criar, solucionar, superar e aproveitar e se divertir do que a reclamar.

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Este é o último 29 de março do resto da vida daquela. E o primeiro da nossa.

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Muitas felicidades, Curitiba, meu amor.

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E, à guisa de comemoração, nessa véspera de aniversário que também é véspera de campanha eleitoral, um trecho de Preponderância do Pequeno, novo romance de Antonio Cescatto, que conta uma história tensa e hilária sobre uma dessas campanhas. Médico abstêmio e publicitário praticante, ele lançou este seu segundo volume de ficção pela Kafka, a mesma editora do Luis Felipe Leprevost, do Manoel Carlos Karam, que está tomando uma Heineken no paraíso, e do Paulo Sandrini. E isso só como um exemplo das muitas outras pessoas que expressam a mudança nesta cidade principalmente pelo fato de continuarem aqui, vivendo, se expressando, publicando, dando novas formas para um nosso velho mau humor ir brincar.

***

“…

Que diabos sei eu sobre o que acontece?

                Tentei ser polido.

                Sem deixar de ser franco. Vim de coração aberto. Coração aberto? Apaguei. Era melhor: com boa vontade.

                Encontrei portas fechadas. Reuniões a portas fechadas. Conversas a portas fechadas. Comecei a sonhar com     portas fechadas.

                Não cheguei a tanto. Limitei-me a mencionar as portas fechadas.

O Pasquale e o Tito passaram o dia enfurnados. Não vejo as caras. Faço roteiros sobre roteiros e repasso. Na maior parte das vezes, Pasquale nem olha. Noutras, lê e guarda. Não participo das discussões de estratégias. Não discutimos caminhos. Colho informações que tento roteirizar.

                Eu sei. Divagava. Começava a me perder.

                Fora isso, tenho dúvidas sobre a estratégia. A história de falar que o modelo da cidade é ultrapassado. A insistência na ideia da mudança.

                Essa parte eu não escrevi, claro. Limitei-me a criticar a estratégia de Homero Furtado.

                Nesse tempo eu não entendia ainda que não se critica a estratégia de Homero Furtado.

                Segue-se a estratégia de Homero Furtado.

                …”

Preponderância do Pequeno, de Antonio Cescatto – Kafka Edições, Curitiba, 2010.

Vira o disco. Disse o marciano.

Era uma vez eu estudava na Uene Bê, comia no Erre U. O grupo de dança se apresentou de maneira inesquecível. Ocupou a entrada, uma área com um desnível na frente da entrada do restaurante, ao som de Amanticida, de Itamar Assumpção. Uma das bailarinas era particularmente inesquecível, por algo que emanava de suas curvas e das curvas que elas produziam.

Uma noite assisti a um show do Itamar num teatro cujo nome não lembro, no Eixo Monumental, pra trás da Torre. Sensacional. Energia, inteligência, ritmo, calor e clareza. Era excelente. Tinha um baterista gigante chamado Gigante Brasil.

Depois um dia aqui em Curitiba assisti a um show do cara no teatro do Portão. No dia seguinte fizemos, o Denis Nunes, o Oswaldo Rios, eu e mais unziotro uma oficina de música com poema e tal e coisa. Já tive uma vez um CD do Itamar interpretando Ataulfo Alves, que considero um dos melhores discos daquele artista brilhante que depois e ficou doente e cada vez mais mau-humorado com a resposta do mundo a seu trabalho. Também possuí três LPs com dedicatórias conseguidas naquela ocasião da oficina. Que se perderam em alguma mudança caídos de um caminhão como poesia que se perde na tradução do que uma pessoa era para o que é este que voz escreve. As pessoas não mudam, diz uma voz de seriado de TV na oitava temporada em benefício próprio. E isso também é verdade. E também só o que não muda é a mudança, dizia um pré-socrático.

Aquelas capas talvez eu encontre um dia num sebo e precise comprá-las de novo. Está escrito numa delas:

Ricardo

música não é pecado

poesia não é fardo

Itamar Assumpção

Se alguém encontrar, me dê um toque. Até lá, mantenho meu tocadiscos funcionando com Chico Buarque e Max Roach e Jorge Veiga. E ouço Ataulfo Alves, por Itamar, no grooveshark, que é excelente.

***

E ontem, há quinze anos, morreu o Chico Science. A respeito dessa figura especial da nossa história, uma vez publiquei

órfico science

da primeira vez que chico science desceu ao hades

onde mora o maracatu

subiu com um som de zumbis

da segunda vez não conseguiu

chegou                                  partiu

a cabeça em mil pedaços

na primeira vez que mergulhou no mangue

caranguejou-se

na segunda o cara anjou-se

decerto morreu olhando o mesmo mangue

caranguemusos sujos de sangue

seria siri sua euridicereia?

***

A despeito da voz que quer deletar este post antes de eu publicá-lo, publico

destreza

ambidestro

destruo

para dentro e para fora

para frente e para trás

para baixo para cima

à direita e à esquerda

vou destruindo tudo

pontes portos certezas

fim de mundo

até sobrar só o céu

a terra

e a tristeza

***



Feliz Ano Novo Todo Dia

Essa música é linda. Foi M… ou seu amigo A… quem me mostrou. M… e eu, a gente se conheceu na aula de francês. No escuro dos anos oitenta, o primeiro disco dos Tears for Fears aquecia nossos croissants encharcados de poesia de língua inglesa.  Sentados na sala fechada da casa dos pais dela, a tarde passava lá fora e os vinis rodando espalhavam uma melanco-languido-lia que inundava o espaço e aquele pedaço de tempo e o que nos tocava era o amor (como nós o conhecíamos).

***

***

Hoje é dois de janeiro de dois mil e doze e eu nunca que pensava lá em 1983 que eu estaria aqui, assim, quase 30 anos depois. Parece totalmente irreal esse pulo. Dos departamentos de um curso engenharia eletrônica para o departamento de criação de uma tv educativa. Um caminho de labirinto que ainda não acabou. Dois de janeiro de dois mil e doze. O futuro é inconcebível. Daí pra no future é um pulo e de lá para agora é outro pulo quântico no mesmo lugar. A diferença é que a alma se modifica no processo. A alma, a consciência, não sei o nome disso que  veio do desespero de elevado peso molecular ao leve abandono contínuo e contumaz de todas as expectativas. Dois de janeiro de dois mil e doze. Só o amor, a lei da gravidade e o eletromagnetismo continuam nos unindo. O resto is a very very mad world.

***

Feliz Ano Novo, só por hoje.

Abração.

R

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NÃO CONFUNDA – Episódio de hoje: Trânsito e Opinião Pessoal

 

Da Série #1: “coisas estranhas encostadas para ver o que acontece”.

***

Não sinalizam. Agem como se dissessem o carro é meu eu pago IPVA e ando do jeito que quiser. Onde eu quiser. Na velocidade em que estiver afim. Na estrada, pista dupla, eles querem ficar só na pista da esquerda. Eu, se vejo no retrovisor um carro que não estava ali na última vez que eu olhei, imediatamente procuro sair da frente, com calma, para a direita, para que o sujeito passe logo de mim e pare de assombrar meu espelho. Aprendi com esses caras que ligar o pisca pra esquerda, quando você chega atrás de um carro que está ocupando a pista da esquerda, quer dizer por favor, deixe-me passar. Luz alta quer dizer sai da frente, animal, e só deve ser usada em caso de você estar cansado da vida e disposto a ter emoção a qualquer custo. O da frente pode se assustar, se ofender, se atrapalhar e isso tudo, a mais de cem quilômetros por hora, com outros automóveis em volta, etc etc etc. pode lhe custar os olhos da cara.

 

***

 

Quando era pequeno tinha grande poder de observar e gravar algumas informações, sensações, sentimentos. Como qualquer guri ou guria. Uma vez fui com meus colegas de turma fazer uma visita ao DETRAN. Devia ser no pré ou no primeiro ano, a gente era bem pequeno. Lembro de duas coisas: a merenda era estranha. Dizer merenda pra mim já diz tudo. Na minha escola, no jardim de infância e depois no colégio, a gente nunca tinha merenda. Tinha lanche. A bebida da merenda era um leite meio esquisito, com gosto docinho, lembrando talvez alguma fruta. Anos mais tarde, no tempo em que parei de beber leite e conheci o leite de soja, entendi que a o leitinho do DETRAN devia ser uma bebida de soja, talvez o que fosse servido em escolas que eu nunca frequentei. Não sei. No meu colégio tinha o Zé Eduardo, que sentava do meu lado e me dava uma metade do rissole de carne que a mãe dele mandava, sempre enrolado num papel alumínio. Era uma coisa muito gostosa. A minha mãe fazia uns sanduiches pra mim. Manteiga e presunto. Às vezes queijo. E uma garrafinha de Nescau. A garrafinha às vezes, molhava o sanduiche, virava no trajeto de casa até a sala de aula com o ônibus do Môto Nelson, um senhor magro, de cabelos e barbas brancas, bem ativo, parecia um capitão de uma nave com um motor que fazia um barulhão, vávulas de metal de abrir a porta com ar comprimido, bem barulhenta também, mais umas sei lá, 20, 30 crianças soltas, fazendo bagunça, jogando, fazendo e sofrendo bullying, e principalmente gritando muito. Não sei como ele agüentava. Parece um milagre não ter havido nenhum acidente muito mais grave que bater a boca no banco numa freada. O sanduiche, quando era de patê de sardinha, com o Nescau derramado, já depois de duas horas na lancheira, o cheiro quando eu abria… é o que em propaganda chamam de memorável.

 

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Tudo isso pra dizer que nessa visita ao DETRAN, mais ou menos trinta e cinco anos atrás, aprendi que o certo é bicicleta andar pela rua, na contramão, pra poder ver se o carro que vem na mesma pista vai virar na sua frente, por exemplo. Se ele vem de trás é difícil, mesmo se a bike tiver espelhinho. E parece que hoje a regra é bem o contrário. Eu continuo achando que a regra antiga era melhor. E que andar de bicicleta na calçada também pode. E que uma coisa importante no trânsito é as pessoas se olharem. O ciclista, o pedestre, o motorista. Prestar atenção nas pessoas. É claro que lei ajuda. Sinalização ajuda. Capacete e meios de transporte mais seguros ajudam. Tribunais que consigam fazer cumprir as leis ajudam. Agora, tudo isso, se as pessoas se olharem, funciona muito melhor. Bicicleta na calçada, se eu não assustar as pessoas, não correr, acho que ajuda o trânsito. Gente que se fecha em vidro preto e se isola em som alto e celular precisa prestar muito mais atenção pra ajudar o trânsito. É mais difícil. Isso é o que eu acho. E daí o que eu acho? A lei é a lei e se a gente fosse escutar o que cada um acha, onde é que iríamos parar? Na internet.

 

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Você já pensou em morar num trailer? Você já pensou que o passado, o renegado, o esquecido, o que foi recalcado, o que não foi perdoado, o que não pode ser dito, o que não foi esquecido, pode às vezes virar um monstro e vir nos assombrar, e que se a gente bobear ele mata a gente? Por outro lado, se a gente se ligar e fizer o que precisa ser feito e tiver sorte, a vida continua. Em todo caso, já que eu tô aqui, e você está aí e deu tempo de ler isso: boa noite bom dia boa semana feliz natal boas festas boas viagens feliz ano novo. Cuide do trânsito. E se cuide. Um abraço.

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